Uma terapia está funcionando quando existe um objetivo claro e é possível perceber algum movimento ao longo do tempo, mesmo que o problema ainda exista. Para avaliar isso, costumo observar três pontos: frequência, intensidade e tempo de recuperação. Se não existe uma direção, se você não se sente à vontade para questionar seu terapeuta ou se nada mudou depois de um período razoável, vale rever o tratamento.
Nem sempre é fácil perceber se uma terapia está funcionando.
Depois de alguns meses, é comum pensar: “Eu continuo tendo os mesmos problemas”, “ainda sinto ansiedade”, “minha relação continua difícil” ou “ainda não consegui mudar aquilo que mais me incomoda”. E daí vem a sensação de que a terapia não está funcionando.
Só que terapia não acontece em linha reta. Existem muitas coisas envolvidas nesse processo: a sua história, a sua estrutura emocional, o contexto de vida, o vínculo terapêutico e até o momento em que você buscou ajuda.
Por isso, antes de concluir que nada mudou, gosto de fazer uma pergunta: você se lembra de como realmente estava quando começou?
Não como imagina que estava. Nem como gostaria de ter estado.
Como você reagia às situações? Quanto tempo levava para se recuperar de uma crise? Como lidava com conflitos, frustrações ou limites? Sem essa comparação, pequenas mudanças podem passar despercebidas.
Por outro lado, uma terapia também pode ficar estagnada. Reconhecer isso não significa que o paciente seja resistente ou que a terapia tenha fracassado. Pode simplesmente indicar que chegou o momento de rever objetivos, estratégias ou até a própria condução do processo.
Como saber se a terapia está funcionando: compare o ponto de partida com o presente
Existe uma característica curiosa das mudanças emocionais: quando acontecem lentamente, nós nos acostumamos com elas.
Uma pessoa que demorava três dias para se recuperar depois de uma discussão pode passar a se reorganizar em algumas horas. Mas continua discutindo, então pensa: “Nada mudou.” Alguém que não conseguia colocar nenhum limite começa a dizer não em algumas situações, mas ainda se culpa depois, e conclui: “Eu continuo igual.”
Outra pessoa talvez ainda tenha crises de ansiedade, mas agora consegue reconhecê-las, compreende os gatilhos, sabe quando precisa pedir ajuda e já não interpreta cada sintoma como uma catástrofe.
A ansiedade não desapareceu. Mas a relação com ela mudou.
Por isso, uma boa avaliação não deveria olhar apenas para a pergunta “o problema acabou?”. Na minha prática, observo principalmente três pontos:
- Frequência: com que frequência isso acontece hoje?
- Intensidade: quão forte é quando acontece?
- Tempo de recuperação: quanto tempo você leva para voltar ao seu estado habitual?
E complemento com outras perguntas: você percebe o que está acontecendo mais cedo? Hoje consegue fazer algo que antes não conseguia? Continua fazendo as mesmas escolhas? Você se trata da mesma maneira quando erra?
Essas diferenças podem parecer pequenas quando vistas isoladamente. Mas, ao longo do tempo, contam uma história.
Terapia não significa ausência de sofrimento
Existe uma expectativa silenciosa de que, quando a terapia começa a funcionar, a pessoa deveria se sentir progressivamente melhor.
Nem sempre.
Algumas fases do processo podem ser desconfortáveis justamente porque você começa a enxergar coisas que antes estavam naturalizadas. Talvez perceba que uma relação que chamava de “complicada” é profundamente desigual. Que o comportamento que justificava há anos tem um custo emocional importante. Que algumas escolhas que pareciam inevitáveis se repetem. Que existe raiva onde você dizia sentir apenas tristeza. Ou que o problema que atribuiu durante anos aos outros também envolve padrões seus.
Perceber não é o mesmo que transformar, e entre essas duas coisas pode existir algum tempo. Às vezes, a sensação de “estou pior” não significa que a terapia esteja piorando você. Pode significar que algumas coisas ficaram mais visíveis.
Mas isso também não deve justificar indefinidamente qualquer sofrimento dentro da terapia. Se tudo é explicado como “parte do processo”, inclusive meses ou anos sem direção, a própria ideia de processo perde o sentido.
Um dos sinais mais importantes: vocês sabem o que estão trabalhando?
É possível entrar em terapia com muitas demandas ao mesmo tempo: problemas no casamento, ansiedade, conflitos familiares, dificuldades profissionais, autoestima, relação com o corpo, traumas antigos, medo de abandono, uma mudança de país. E cada semana pode trazer uma nova urgência.
A sessão começa a acompanhar o que aconteceu nos últimos sete dias. Na semana seguinte surge outro conflito. Depois outro. Tudo é importante, mas, quando tudo se torna prioridade, nada consegue realmente ocupar o centro do trabalho.
Eu penso nisso como uma pulverização das demandas: a terapia se espalha entre tantas urgências que nenhuma delas chega a ser trabalhada com continuidade. A pessoa fala de muitas dores, compreende várias coisas, talvez até saia das sessões aliviada, mas há pouca ligação entre um encontro e outro.
Um processo terapêutico não precisa ser rígido. A vida acontece, e frequentemente precisamos trabalhar aquilo que surgiu. Mas deveria existir algum eixo: uma pergunta central, um padrão sendo acompanhado, um objetivo que, de tempos em tempos, possa ser retomado. Caso contrário, a terapia pode se transformar em uma sequência de conversas importantes que não necessariamente produzem elaboração ou mudança.
Conversar não é necessariamente fazer terapia
Sentir-se acolhida pelo terapeuta é importante. Ter alguém que escuta sem julgamento também. Mas o vínculo, sozinho, nem sempre é suficiente.
Se durante meses você conta os acontecimentos da semana, o terapeuta escuta, valida suas emoções e a sessão termina sem que vocês investiguem padrões, contradições, escolhas, defesas ou possibilidades diferentes de resposta, talvez seja importante conversar sobre isso.
Uma boa terapia não precisa ser constantemente desconfortável, nem produzir uma “grande descoberta” a cada encontro. Mas, com o tempo, deveria existir algum movimento. Às vezes ele aparece na compreensão, às vezes no comportamento, nos limites ou na maneira como você se relaciona consigo mesma. E, frequentemente, acontece primeiro de forma pequena.
Talvez a técnica não combine com você
Terapia não é tudo igual. Uma pessoa pode passar por uma experiência ruim com determinado terapeuta ou abordagem e concluir que “terapia não funciona para mim”, quando talvez aquela forma de trabalhar é que não funcionasse para ela.
Existem abordagens mais estruturadas, com definição de objetivos, intervenções e tarefas entre sessões, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Existem abordagens mais voltadas à história, aos vínculos, aos conflitos inconscientes e aos significados que se repetem na vida, como a psicanálise. Há terapeutas mais diretivos e outros que trabalham principalmente com perguntas e elaboração.
Algumas pessoas gostam de compreender profundamente a origem de um padrão. Outras ficam frustradas se compreendem durante meses e não sabem o que fazer com aquilo. Algumas precisam, no início, de ferramentas mais concretas para conseguir regular emoções e organizar a vida. Isso não torna uma abordagem melhor do que outra, mas significa que a forma como você consegue trabalhar também importa.
Se você sente que a terapia permanece num formato que não ajuda, vale dizer isso claramente: “Eu sinto que compreendo muito, mas não consigo transformar.” “Preciso de mais direção.” “Essas técnicas não fazem sentido para mim.” “Eu gostaria de entender qual é o objetivo deste trabalho.”
Essa conversa também faz parte da terapia.
Talvez o tratamento precise ser ampliado
Às vezes, a terapia não avança porque o quadro pede mais do que psicoterapia. Uma depressão moderada ou grave, crises de pânico frequentes, sintomas obsessivos intensos ou oscilações importantes de humor podem exigir uma avaliação psiquiátrica em paralelo.
Nesses quadros, psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico costumam funcionar melhor juntos do que separados. E um bom terapeuta sabe reconhecer quando é hora de encaminhar.
O vínculo com o terapeuta pode não estar funcionando
Você não precisa gostar do terapeuta como gostaria de um amigo. Mas precisa existir confiança suficiente para que você consiga falar de coisas difíceis, inclusive sobre o próprio terapeuta.
Se você sente que precisa agradá-lo, teme decepcioná-lo ou evita dizer que alguma intervenção incomodou porque imagina que ele reagirá mal, algo importante está acontecendo. Algumas dessas sensações podem reproduzir padrões seus e, justamente por isso, ser material terapêutico. Mas também pode existir um problema real na relação.
A diferença costuma aparecer quando você consegue levar isso à sessão. Um terapeuta deveria conseguir ouvir perguntas sobre o processo, dúvidas, incômodos e críticas sem transformar isso numa disputa ou numa acusação contra o paciente.
E existe a contratransferência do terapeuta
Esse é um ponto pouco discutido fora da formação clínica. Terapeutas também têm história, também tiveram relações difíceis, também têm vulnerabilidades, pontos cegos e dores.
Na clínica, chamamos de contratransferência as reações emocionais que surgem no terapeuta diante do paciente e da relação terapêutica. Essas reações não são necessariamente um problema e podem até fornecer informações importantes sobre o que acontece na relação. O problema aparece quando o terapeuta não consegue reconhecer o que é do paciente e o que pertence à própria história.
Imagine um terapeuta que viveu uma relação muito parecida com a sua e ainda não elaborou aquilo suficientemente. Talvez ele se identifique demais com você. Talvez fique excessivamente indignado com seu parceiro, ou queira que você tome a decisão que ele gostaria de ter tomado. Ou, pelo contrário, normalize comportamentos que também normalizou na própria vida.
É por isso que considero importante que profissionais que trabalham com sofrimento psíquico tenham espaços de cuidado e reflexão sobre a própria prática. Perguntar se seu terapeuta faz ou já fez terapia, e se tem supervisão clínica ou algum espaço de discussão dos casos, não é uma pergunta inadequada. Não significa invadir a vida pessoal dele. Significa compreender como ele cuida da própria prática e dos próprios pontos cegos.
Seu terapeuta parece ter uma posição pronta sobre sua vida?
Existe uma diferença entre um terapeuta ajudá-la a perceber algo e decidir o que você deveria fazer. “Você precisa terminar.” “Você deveria perdoar.” “Você precisa cortar sua mãe.” “Você deveria ter outro filho.” “Seu casamento não tem solução.” Afirmações desse tipo merecem cuidado.
Existem situações de risco em que o profissional precisa ser bastante claro sobre segurança. Fora disso, a terapia não deveria transformar o terapeuta numa autoridade sobre as escolhas de vida do paciente. O trabalho é ajudá-la a compreender a situação, seus padrões, seus limites e as consequências de diferentes escolhas.
A decisão continua sendo sua.
Talvez exista muita compreensão e pouca mudança
Essa é uma situação que encontro com frequência. A pessoa sabe explicar perfeitamente o próprio padrão: “Eu escolho pessoas indisponíveis porque…”, “Quando alguém se afasta, eu faço isso porque…”, “Minha necessidade de aprovação vem de…”. Tudo isso pode estar correto. Mas saber por que você faz alguma coisa não significa conseguir fazer diferente.
Em determinado momento, talvez seja necessário transformar compreensão em experiência. Experimentar um limite. Tolerar uma frustração. Não mandar aquela mensagem. Suportar o silêncio. Permitir que alguém fique insatisfeito com você sem imediatamente tentar reparar.
A elaboração continua importante, mas algumas mudanças precisam acontecer também fora da sessão.
Você não consegue falar sobre a própria terapia
Talvez este seja um dos sinais mais claros de dificuldade. Se você pensa que o processo está parado, deveria ser possível dizer: “Estou com a sensação de que não estamos avançando.”
Um bom terapeuta não precisa concordar imediatamente. Pode enxergar mudanças que você não percebeu, ajudá-la a reconstruir a linha do tempo ou mostrar que vocês mudaram de objetivo ao longo do processo. Ou pode concordar: talvez vocês tenham perdido o foco, talvez seja preciso mudar a forma de trabalho, talvez outro profissional seja mais adequado naquele momento. Tudo isso pode ser conversado.
Se a simples tentativa de questionar o tratamento gera defensividade, culpa, ironia ou pressão para que você continue, isso merece atenção.
Quanto tempo uma terapia leva para funcionar?
Não existe um número universal. Essa talvez seja uma das respostas mais frustrantes, mas é a mais correta.
Uma dificuldade pontual pode responder rapidamente a intervenções específicas. Questões que envolvem padrões de relacionamento antigos, traumas, estrutura de personalidade, vínculos familiares ou repetições de décadas dificilmente seguem o mesmo ritmo.
Também existem períodos em que a terapia tem uma função mais de sustentação do que de mudança rápida. Uma pessoa atravessando luto, doença, divórcio, uma mudança de país ou uma crise familiar talvez não esteja “evoluindo” como imaginava. Mas talvez esteja conseguindo atravessar aquele período sem se desorganizar como aconteceria antes.
Por isso, o tempo, sozinho, não responde se a terapia está funcionando. O que importa é compreender o que está sendo trabalhado e se existe algum movimento ao longo desse tempo.
Alguns sinais de que vale revisar o processo
Depois de um período razoável, talvez seja importante conversar sobre a terapia quando você não consegue identificar nenhum objetivo do tratamento, quando as sessões parecem sempre começar do zero, ou quando vocês falam de muitos assuntos, mas nenhum é aprofundado.
Também quando você compreende cada vez mais a própria história, mas nunca discute como transformá-la. Quando não consegue discordar do terapeuta, ou se sente julgada, diminuída ou interpretada de uma forma que não reconhece. Quando o terapeuta parece mais envolvido emocionalmente com suas decisões do que você, quando suas perguntas sobre o processo são evitadas, ou quando existe a sensação persistente de que vocês estão repetindo a mesma conversa.
Nenhum desses sinais, isoladamente, determina que a terapia seja ruim. Mas são bons motivos para abrir uma conversa.
Quando não é caso de conversar, e sim de encerrar
Existem situações, porém, que não pedem uma revisão do processo. Pedem encerramento:
- qualquer aproximação de cunho romântico ou sexual;
- propostas de relação fora da terapia, como amizade, negócios ou favores;
- exposição do que você contou em sessão, inclusive nas redes sociais;
- humilhação, ameaças ou desqualificação recorrente;
- pressão para que você não procure outra opinião ou outro profissional;
- uma piora importante, especialmente com pensamentos de morte, sem que o terapeuta responda com seriedade.
Nessas situações, não cabe a você “trabalhar a relação”. Se houver risco à sua segurança, procure ajuda imediata.
O que fazer quando você acha que a terapia não está funcionando?
Antes de abandonar o tratamento, vale transformar essa sensação em assunto da própria sessão. Você pode perguntar:
- “Qual era nosso objetivo quando começamos?”
- “O que você percebe que mudou desde então?”
- “Em que você acha que continuamos presos?”
- “Existe algo que estamos evitando trabalhar?”
- “Você acha que precisamos mudar nossa estratégia?”
- “Como você avalia meu progresso?”
Essas perguntas ajudam a reconstruir a linha do tempo. E às vezes a resposta surpreende: você percebe que mudou mais do que imaginava. Ou percebe que realmente está na hora de mudar alguma coisa. As duas conclusões podem ser importantes.
Mudar de terapeuta não significa que você fracassou
Às vezes, uma relação terapêutica cumpre uma função durante determinado período e depois deixa de ser a mais adequada. Talvez você precise de uma abordagem diferente, de alguém com experiência específica numa questão que se tornou central, de mais ou de menos estrutura, de outra forma de vínculo. Encerrar uma terapia também pode ser uma decisão terapêutica.
O ideal, quando existe possibilidade e segurança, é conversar antes de simplesmente desaparecer. A forma como você termina vínculos também pode dizer coisas importantes sobre a maneira como os vive. Mas você não é obrigada a permanecer numa terapia apenas porque começou.
A pergunta talvez não seja “a terapia está funcionando?”
Talvez existam perguntas melhores. O que eu esperava que estivesse diferente a esta altura? Essa expectativa foi conversada com meu terapeuta? Consigo perceber alguma mudança entre quem chegou à primeira sessão e quem sou hoje? Existe uma direção no nosso trabalho? Consigo falar sobre aquilo que não está funcionando? Estou sendo apenas compreendida ou também estou conseguindo construir novas formas de responder à vida?
Terapia envolve tempo. Mas tempo, sozinho, não faz terapia.
Envolve vínculo. Mas vínculo, sozinho, também não.
Envolve compreensão, técnica, elaboração, confronto, experiência e capacidade de rever o próprio caminho. Inclusive por parte do terapeuta.
Às vezes, perceber que uma terapia não está funcionando é justamente o que permite fazê-la voltar a funcionar. E, em outras vezes, é o que permite reconhecer que está na hora de procurar outra forma de cuidado.
Perguntas frequentes
Como saber se a terapia está funcionando?
Compare como você estava no início com como está hoje. Eu costumo observar três pontos: se os problemas acontecem com menos frequência, com menos intensidade e se você se recupera mais rápido. Também é um bom sinal quando existe um objetivo claro e você consegue falar sobre o processo com seu terapeuta.
É normal se sentir pior durante a terapia?
Em algumas fases, sim. Quando você começa a enxergar padrões que antes estavam naturalizados, o desconforto pode aumentar por um tempo. Mas esse período não deveria se prolongar indefinidamente sem direção. Uma piora importante, especialmente com pensamentos de morte, precisa ser levada a sério e conversada imediatamente.
Quanto tempo leva para a terapia fazer efeito?
Não existe um prazo universal. Dificuldades pontuais podem responder em poucos meses, enquanto padrões antigos de relacionamento e traumas costumam levar mais tempo. Mais importante do que o tempo é saber o que está sendo trabalhado e perceber algum movimento.
Quando é hora de trocar de terapeuta?
Quando, depois de tentar conversar sobre o processo, a sensação de estagnação continua; quando você não consegue discordar ou questionar; ou quando precisa de outra abordagem. Situações de violação ética, como aproximação romântica, exposição ou humilhação, pedem encerramento imediato.
Terapia online funciona para quem mora fora do Brasil?
Para muitas pessoas, sim. Estudos indicam que, para ansiedade e depressão, a terapia online tende a ter resultados semelhantes aos do atendimento presencial. Para quem vive no exterior, ela permite fazer terapia em português, com alguém que compreende as referências culturais brasileiras e os desafios da adaptação a outro país.